Resenhas de livros · por Bia · edição de novembro de 2026

Sai da internet e vai ler um livro

Capa de Solitária
Livro
Solitária
Autor
Eliana Alves Cruz
Gênero
Ficção Literária
Ano
2022
Páginas
168

Solitária

Lido em 27 de outubro de 2026

A história se passa no Edifício Golden Plate, um condomínio de luxo bizarro daqueles cheios de ricaço arrogante. É lá que vivem e trabalham Eunice (a mãe) e Mabel (a filha), duas mulheres negras que dividem o cubículo conhecido como "quartinho de empregada" nos fundos do apartamento dos patrões, os juristas Dona Lúcia e Seu Tiago. Enquanto a mãe passou a vida inteira servindo aquela família e aceitando aquela rotina pesada com a cabeça baixa, a filha cresceu naquele ambiente claustrofóbico guardando uma baita revolta e o desejo de ter um destino bem diferente.

Mabel não teve uma infância normal; desde pequena ela sentia na pele a violência sutil das regras da casa, como ser proibida de usar o elevador social ou pisar na área da piscina. Para piorar, ela era colocada para cuidar da filha dos patrões, virando uma espécie de "brinquedo" ou miniadulta servil. Só que a Mabel estuda, corre atrás, entra na faculdade e se recusa a aceitar o pacto invisível de submissão que a sociedade tenta impor a ela e à mãe.

A rotina delas vira um verdadeiro inferno quando um crime chocante e misterioso acontece bem debaixo do teto dos patrões. Eunice acaba virando a testemunha-chave desse mistério, mas o casal de patrões faz de tudo para abafar o caso e proteger os próprios privilégios, usando sua influência jurídica e o silêncio forçado das funcionárias. É a partir dessa quebra de silêncio que a estrutura daquela casa grande moderna começa a desmoronar.

Mabel assume a linha de frente para investigar e elucidar o caso, não apenas por justiça criminal, mas porque entende que aquela é a única chance de arrancar a mãe daquela prisão disfarçada de emprego. A narrativa se divide pelos cômodos da casa — como o quartinho, a piscina e o elevador — e o título "Solitária" ganha várias camadas: representa o isolamento do quartinho dos fundos, a solidão das mulheres negras e a solitária de uma prisão.

O livro ganha contornos ainda mais reais quando a pandemia de Covid-19 atinge o país. Eliana Alves Cruz usa o cenário da crise sanitária para mostrar como os mais pobres foram os primeiros expostos ao vírus enquanto os ricos se isolavam, lembrando a leitora de casos trágicos da vida real que aconteceram no Brasil recente. Mesmo no caos do hospital, Mabel segue firme em seu plano de ascensão.

No final das contas, o livro é um grito de basta e um manifesto de emancipação. Em vez de focar apenas na dor da exploração, a autora constrói uma jornada poderosa sobre letramento racial, ancestralidade e o poder da educação. É a história de como essas mulheres conseguem finalmente destrancar a porta dos fundos e tomar o controle das suas próprias vidas.

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